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Catuco da Vovó

Para o meu irmão Flávio





Catuco da Vovó


Para o meu irmão Flávio



Minha avó apresentava
Um franco favoritismo
Pelo Catuco da Vovó
Primogênito querido
Eram duas contra unzinho
Precisava ser protegido.
Ele era O bonzinho,
E nós duas: “minina-horríve”.

Não importava a brincadeira
Ele sempre bagunçava.
Jogava as coisas no chão,
Meu URSO VERMELHO SOCAVA,
Ria das minhas tranças,
No armário me trancava.
Por bom tempo suportávamos
Permanecíamos caladas.

Quando não mais "guentava"
Botavamos a boca no mundo:
VÓ-ÓÓÓ!  VEM CÁ-ÁÁÁÁ!!!
Vó vinha logo, num segundo,
Para tudo consertar:
Sem ouvir o nosso lero
Já ia logo a julgar:
“Catuco, larga essas minina,
Que elas num sabe brincá!”

Ora, ora que absurdo:
Duas "injustiçada"!
Muito justa minha avó,
"Tava" sendo enganada!
O sonso com cara de anjo,
Com má fama nos deixava.

O malino que aprontava
Saía limpo e ileso,
Nem uma bronca levava...
Mas tinha o rabo preso.
E lá ia o Catuco,
Com cara mais lavada.
Mas no fundo Vó sabia
Quem era a pessoa errada.

Hoje em dia a gente sabe,
Vó tinha sabedoria.
Sem nenhum estudo usava
Reversa Psicologia.
Com a contenda acabava,
Mas matava a gente à míngua.
Porque ele festejava,
Fazendo cara, dando língua.
Mas de nós Vó afastava
Sem encrenca, aquela íngua.

“Vem comigo, vem Catuco!
Vem, que eu te faço um suco!”
Dessa forma nossos ânimos
Conseguia apaziguar
E assim tranquilamente
A gente voltava a brincar.
Até a próxima vez
Que ele viesse implicar.

Justa mesmo a minha avó,
Esperta como ela só!
Fazia que protegia
O Catuco da Vovó.
Muito sábia e sagaz
Conseguia o que queria:
Em casa, reinar a paz
Sem desatada sangria.

Quanto tempo se passou,
Vovó estrela virou.
Alegrias, incertezas...
A gente casou, separou..
Cada um tomou seu rumo
Todos nós tomamos prumo. (será?)
Não importa nossa idade,
Quantos filhos ou cidade
A gente more, resida,
Minha avó sempre estará
Presente nas nossas vidas.

Nós, as "Minina-horríve"
Lembramos, rindo, com carinho
Do jeito que ela falava
Meio brava e com jeitinho.
Pra dar credibilidade
Ao "nome" que ela nos dava,
Mas a verdade era
que a ninguém magoava.
Era só sua técnica
pra acalmar a criançada.

E para meu irmão então
Não importa o que aconteça
Mesmo quando for velhinho,
Ele sabe de cabeça,
Se for rico ou se for pobre,
Para sempre conquistou,
Título melhor que de nobre,
De lorde, barão, de doutor.
Terá uma certeza só.
E não há certeza melhor:
Que sempre foi, é e será
O Catuco da Vovó!




"Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é não é mera coincidência"


@2008 vaniaamadeu



SÔ-ESSA!



 

Para minha irmã Eny

 

Havia uma brincadeira,

Que minha irmã inventara,

Pequenininha eu era,

E no sofá eu sentava,

Com as perninhas pra cima,

O chão elas não tocavam.

 

A revista da época

No colo a gente botava.

Passava devagar as folhas,

Quando a figura apontava...

Batíamos a mão com força:

"Sô-essa!!!" a gente bradava.

 

E quem gritasse primeiro

Era a magrela Twiggy.

Ou "desfila Mila desfila",

Ou quem sabe Barbarella,

Raquel Welch, Miss, artista.

Obviamente a mais rápida,

Era linda, a mais bonita,

Modelo da tal revista.

 

A gente gargalhava, ria...

Era aquela alegria!

Só que eu boba, não sabia,

Nem desconfiava enfim,

Que minha irmã já havia

Folheado o magazim.

 

Ela já sabia a página

Aonde tinha uma guerra,

Perereca, cacatua,

Ou uma briga de rua.

Eu gritava: "Sô-essa!"

Quando me deparava,

Com uma figura indigesta.

Ela inerte, calava,

"Sô-essa" ela não gritava.

 

Eu queria ser modelo, gente,

Não Fidel, macaco ou enchente!

Decepcionada eu ficava,

Aos prantos Vovó chamava.

Minha irmã rindo, pra mim,

O dedo em riste apontava.

Meus profundos sentimentos,

Assim ela magoava,

Pois brincadeira de "Sô-essa"

Muito a sério, eu levava.

Vó acabava com a farra,

Todas duas dispersava.

 

Mas noutro dia eu esquecia,

Do chororô que aprontara.

Era só minha irmã falar,

(Eu era boba à bessa),

"Vamo brincá de Sô-essa"!

Que no sofá eu pulava.

 

Precisava coisa pouca:

Duas "menina" à toa

Cruzeiro ou Manchete nova,

Que ficava meio rasgada...

Mãe lia revista rota.

 

Até hoje não sei de brincadeira igual.

Pra brincadeira inventada, até que era legal!

Em dia de chuva na quadra, mantinha a gente ocupada.

Longe dos perigos da rua ou de qualquer outro mal.

 

Brincadeira de "Sô-essa" continua na lembrança.

Das brincadeiras divertidas, que habitaram nossa infância.

Criativas, inventávamos maneiras de ser criança.

 

*EU SOU ESTA - seria a forma correta de denominar a brincadeira, pois a gente queria ser a figura da revista... mas quem se importa!

 

@2008 Vania Amadeu